- Em pessoas com mais de 65 anos, o risco aumenta consideravelmente e a probabilidade de contrair a doença durante a internação chega a 51%.
- Começa com colite persistente e febre, e pode evoluir para peritonite, sepse, perfuração intestinal e morte.

Nota: Clarín – Por Emilia Vexler
O uso excessivo de antibióticos não só contribui para aresistência antimicrobianaem hospitais e clínicas na Argentina, como também dá origem a uma bactéria que, embora não seja multirresistente, é “oportunista”, atacando também aqueles queficam internados por vários diase sendo especialmente prejudicial para os idosos.
O que poderia ser simplesmente uma típica diarreia “por tomar muitos medicamentos” é, na verdade, um grave problema associado à assistência médica no país, resultado desse patógeno difícil de tratar, quesobrevive nas superfíciesdos centros de saúde por meses. Chama-seClostridioides difficile.
Pode causar surtos dentro do próprio hospital, mas também infecções intestinais, mesmo após a alta hospitalar ou após um tratamento intensivo com antibióticos.
Em pacientes com mais de 65 anos,esse risco aumenta consideravelmente. Nesses casos, a probabilidade de contrair a doença durante a internação chega a 51%. Quando a colite persistente e a febre evoluem para inflamação do cólon, podem resultar em peritonite, sepse, perfuração intestinal, megacólon tóxico e morte.
«A infecção ocorre devido ao uso — e, muitas vezes, ao uso indevido — de antibióticos, o que altera o equilíbrio da microbiota intestinal, permitindo que essa bactéria se multiplique descontroladamente e libere toxinas que inflamam o cólon. Ela é transmitida principalmente pela via fecal-oral, em ambientes hospitalares ou lares de idosos. São 50 a 75 casos a cada 100 mil habitantes, com alta morbidade e custo para o sistema de saúde”, explica aoClarínGonzalo Perez Marc, médico e pesquisador principal da Equipo Ciencia.

Não se trata de infecções intestinais causadas pela resistência antimicrobiana, esclarece ele, mas estão relacionadas a essa ameaça à saúde mundial, «uma vez que ambas são consequência douso indiscriminadode antibióticos», surgem no mesmo contexto médico e são igualmente graves para os mesmos pacientes.
Os dados sobre a frequência e a relevância dessa bactéria são escassos e heterogêneos.
«A maioria dos estudos epidemiológicos de laboratório expressa a incidência em relação ao total de amostras de fezes e a calcula com base em diferentes denominadores», alertou Laura Barcán, que, devido à pandemia e às hospitalizações em massa, publicou as «Recomendações para o diagnóstico, tratamento e prevenção das infecções porClostridioides difficile».
Se existe uma luta — e é aquela travada nas unidades de terapia intensiva paraevitar que ocorra uma segunda infecçãocausada por bactérias presentes no ambiente —, outra batalha igualmente “disputada” ocorre nos laboratórios. E a Argentina está tendo uma participação significativa em um estudo internacional para prevenir essas infecções hospitalares em idosos.
Mais especificamente,uma vacina. A primeira a prevenir a forma grave da doença causada pelaClostridioides difficile.
«Seria uma ferramenta fundamental para amenizar esse problema de saúde pública. De certa forma, essa vacina ajuda a prevenir as consequências do uso indiscriminado de antibióticos e da diminuição damicrobiota intestinal», explica Perez Marc, cientista que, durante a pandemia,trabalhou ao lado de Fernando Polacknoensaio clínico da vacina contra a Covidda Pfizer. Agora, ele está envolvido neste novo projeto que o mesmo laboratório americano está conduzindo em todo o mundo e também na Argentina.
Resultados promissores
O estudo, quese encontra na Fase 3, está sendo realizado no Centro de Pesquisa Equipo Ciencia, na Fundação Huésped, no Centro Barrio Parque da SMG, no Sanatório Sagrado Corazón (OSECAC) da Cidade Autônoma de Buenos Aires, no Instituto Médico Platense de La Plata, no ICSAL de Salta, na Clínica del Sol de Córdoba, na Clínica de Cuyo de Mendoza e na Clínica del Niño y la Familia de Mar del Plata.

«Essa vacina tem a particularidade de já ter demonstradoalta eficácia naprevençãodeformas graves da doença em outro estudo que, originalmente, foi realizado com outro objetivo. O que estamos tentando demonstrar novamente como objetivo principal já havia sido comprovado indiretamente», destaca o médico.
Esse estudo, denominado Clover, foi publicado na revista Clinical Infectious Disease no final de 2024 e revelou que a vacina“reduziu a duração dos sintomasdas pessoas que precisaram de atendimento médico e tratamento com antibióticos, o que destaca seu potencial para diminuir a carga de cuidados de saúde associada a essa infecção”, segundo oartigo.
«A vacina provou ser segura em estudos de fase 2 e fase 3 que envolveram mais de17.000 voluntários em 23 países. Agora, um estudo semelhante está sendo repetido com foco na prevenção da doença grave. Esse ensaio clínico visa justamente antecipar o problema, prevenir a infecção ereduzir as hospitalizações, gerando evidências que possam transformar a forma como lidamos com essas doenças no futuro”, conclui Perez Marc.
No ensaio clínico atual, serão recrutadosmaiscerca de30.000 voluntáriosem todo o mundo, e quase um quinto deles será argentino.
A vacina é administrada emduas doses, com um intervalo de seis meses, e o acompanhamento dos voluntários — que devem ter mais de 65 anos, ter sido hospitalizados no último ano, comparecer a várias consultas médicas e ter tomado antibióticos recentemente — se estende por cerca de três anos, a fim de avaliar os resultados clínicos.